16 outubro 2010

RCA inicia intercâmbio coletivo ao Xingu

Sábado. 16 de outubro de 2010. Tem início hoje, em Brasília, um intercâmbio coletivo de representantes das organizações indígenas e indigenistas que formam a RCA-Brasil ao Parque Indígena do Xingu em Mato Grosso. Durante 15 dias, mais de 30 representantes indígenas e indigenistas da Foirn, Hutukara, Apina, Wyty-Catë, Opiac, Iepé, ISA e CTI participarão de um intercâmbio coletivo ao Parque Indígena do Xingu, com intuito de conhecer e trocar experiências sobre a gestão territorial do entorno das terras indígenas. O grupo chega na manhã do dia 17 em Canarana, onde serão recebidos pelos representantes da Atix e do ISA-Xingu.

Intercâmbios coletivos - O Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, foi o local escolhido para sediar o intercâmbio coletivo das organizações que integram a RCA em 2010, concluindo um ciclo de intercâmbios coletivos, iniciado em 2007, centrado na temática da gestão territorial e ambiental das terras indígenas. Naquele ano, a RCA realizou um intercâmbio simultâneo na Região do Rio Negro, seguido por um encontro de sistematização, focado na gestão territorial indígena, que permitiu não só a troca de informações, mas a sistematização de experiências e de dificuldades comuns aos diferentes contextos regionais e culturais de origem dos participantes, possibilitando a identificação de estratégias e metodologias semelhantes e divergentes empregadas pelas organizações membro. Os representantes dos povos indígenas de diferentes regiões da Amazônia viajaram para o município de São Gabriel da Cachoeira (AM) e lá se constituíram três grupos que viajaram por rios distintos, com o objetivo de conhecer as estratégias de gestão territorial e ambiental implementadas pela Foirn e pelo ISA naquela região. Visitaram os Rios Uaupés, Içana e Tuyuka e na volta dessa viagem, por três dias, os 35 participantes do intercâmbio discutiram e sistematizaram conhecimentos acumulados sobre práticas em gestão territorial indígena.

Em 2009, a RCA ampliou a discussão aprofundando o tema da gestão territorial, promovendo um novo intercâmbio para o Acre com o tema “Formação para a gestão territorial e ambiental das Terras Indígenas”, que reuniu 40 pessoas - entre lideranças, agentes ambientais e professores indígenas provenientes de 18 povos distintos, bem como assessores e agentes diretamente envolvidos com o tema - pertencentes a 17 organizações indígenas e indigenistas que integram a RCA e/ou mantêm parceria com suas organizações membro. Os participantes viajaram para a Terra dos Ashaninka, visitaram o Centro de Formação Yorenka Ãtame (em Marechal Tamaturgo) e conheceram as experiências de gestão territorial implementadas por esse povo. Depois, retornaram a Rio Branco e por 4 dias sistematizaram conhecimentos sobre as estratégias de formação envolvidas na gestão das terras indígenas. Um documento com sugestões para as políticas públicas foi elaborado e difundido (ver neste blog).

Viagem ao Xingu - E, agora, de 16 a 30 de outubro de 2010, a RCA conclui esse ciclo de intercâmbios, realizando um intercâmbio coletivo para a região do Xingu, com o intuito de por em discussão a questão da gestão do entorno das terras indígenas. O Parque Indígena do Xingu foi escolhido para sediar o encerramento desse ciclo de intercâmbios sobre gestão territorial por ser uma região de transição entre o cerrado e a Amazônia, que abriga 50 aldeias onde vivem 15 povos distintos, com uma população que ultrapassa as 5 mil pessoas, num complexo sistema de convivência cultural, e por estar construindo respostas condizentes aos desafios que pairam sobre o Parque. Nos últimos anos, um verdadeiro “abraço de morte” cercou o Parque do Xingu, com uma crescente deterioração das condições ambientais do seu entorno, resultado do desmatamento intenso, praticado pelas fazendas com plantação de soja e criação de gado, poluição e assoreamento dos rios e afloramento de conflitos ambientais. A situação ganhou projeção internacional e um conjunto de ações foram postos em marcha para reverter esse quadro. Conhecer essas experiências, interagir e aprender com elas constituem a idéia básica que orienta a realização do intercâmbio da RCA em 2010.

No roteiro da viagem, os participantes conheceram as aldeias dos Yawalapiti, Kaiabi, Kuikuro, Kisêdjê, Ikpeng, além do PI Diauarum. O intercâmbio termina com um encontro de sistematização sobre o contexto regional e as estratégias de gestão territorial nas terras indígenas. Espera-se atingir os seguintes objetivos com esse intercâmbio:

1.    Promover o intercâmbio de experiências entre povos indígenas da Amazônia e o conhecimento das práticas de gestão territorial indígena e do seu entorno, desenvolvidas pelos povos indígenas do Xingu, no Estado de Mato Grosso.

2.    Sistematizar e difundir conhecimentos de gestão territorial indígena acumulados pelos povos indígenas e pelas organizações indígenas e indigenistas integrantes da RCA-Brasil, no que se refere à questão do entorno das terras indígenas e de seu contexto regional.

3.    Apresentar as conclusões do intercâmbio e da oficina de sistematização aos órgãos governamentais de interesse, visando contribuir com as políticas públicas voltadas a proteção das terras indígenas e das florestas brasileiras.

 

O intercâmbio da RCA ao Xingu é coordenado pela Atix e pelo ISA-Xingu e conta com o apoio da Rainforest Foundation da Noruega, da Embaixada Real dos Países Baixos no Brasil e do Programa de Meio Ambiente da USAID.

Gestão de Patrimônios Culturais Indígenas é discutida no Museu do Índio

Na tarde do último dia 30 de setembro, encerrou-se no Rio de Janeiro, nas dependências do Museu do Índio, o Encontro Temático “Gestão de Patrimônios Culturais Indígenas: compartilhar conhecimentos construindo elos”. Promovido pela Rede de Cooperação Alternativa – RCA Brasil, em parceria com o Museu do Índio da Funai, o encontro contou com a participação de  35 representantes das organizações indígenas e indigenistas que compõem a RCA, que apresentaram e discutiram experiências de valorização e gestão cultural conduzidas entre os povos indígenas do Xingu, Vale do Javari, Rio Negro, Timbira, Amapá e Roraima.

RCA RJ 116

O Encontro foi aberto pelo Secretário-Executivo da RCA, o antropólogo Luís Donisete B. Grupioni, que marcou a importância de reunirem num mesmo encontro diferentes experiências inovadoras de gestão cultural, procurando identificar pontos em comuns e dificuldades, com vistas à sistematização de propostas para as políticas culturais dirigidas aos povos indígenas, e pelo diretor do Museu do Índio, José Carlos Levinho, que apresentou o Programa de Documentação das Línguas e Culturas Indígenas desenvolvido por aquela instituição. Nos quatro dias seguintes, os participantes do encontro, por meio de apresentações, plenárias e trabalhos em grupo puderam conhecer e discutir diversas iniciativas de gestão cultural. Por regiões, foram apresentadas e discutidas iniciativas conduzidas em diferentes frentes. A Foirn e o ISA trouxeram a experiência de registro, pelo Iphan, da Cachoeira da Onça, no Rio Negro (AM) e do processo de retomada cultural que a envolveu. A Hutukara apresentou iniciativas de valorização cultural na região, com gravação de CDs e retomada de festas, além de apresentar seu programa de educação, ancorado no fortalecimento da língua Yanonami. O CTI apresentou os programas de pesquisas indígenas conduzido no Vale do Javari e a constituição do acervo de referência cultural Timbira, no Centro Timbira Penxwyi Hempejxà. A Atix apresentou um projeto de documentação musical do povo Yudja e de valorização de conhecimentos de manejo dos Kisendje. O Apina e o Iepé apresentaram o programa de formação de pesquisadores Wajãpi e os trabalhos do Centro de Documentação Wajãpi, além do trabalho de valorização cultural junto às mulheres do Tumucumaque. O Opiac e a CPI-AC apresentaram o programa de pesquisa dos conhecimentos tradicionais que subsidiou a formação de professores e agentes agroflorestais indígenas no Acre. Um documento base com um resumo dessas apresentações foi preparado e distribuído previamente ao Encontro.

Durante os quatro dias do Encontro, os participantes expuseram essas diferentes experiências de valorização cultural, discutiram metodologias e estratégias de trabalho, e identificaram interesses e problemas comuns na gestão de patrimônios culturais indígenas. A constatação de que a praticar a própria cultura é a melhor forma de mantê-la e revitalizá-la, ensejou diversas discussões.  As dificuldades no diálogo entre gerações e as diferentes expectativas de jovens e velhos em relação ao próprio conhecimento foi outro ponto muito discutido no Encontro. A importância de garantir e de reavivar os contextos tradicionais de transmissão cultural foi outro aspecto ressaltado nos debates, juntamente com discussões sobre os novos espaços e oportunidades que se tem criado nos últimos anos, por meio de centros culturais, museus indígenas e apresentações culturais, com o uso de novas tecnologias, que tem permitido o registro, a pesquisa e a organização de acervos de referência cultural a partir dos interesses das próprias comunidades indígenas. Documentação de práticas culturais, constituição de acervos de referência cultural, formação de pesquisadores indígenas, construção de centros de documentação, registros e difusão de conhecimentos foram estratégias apresentadas e debatidas pelos participantes. Ao mesmo tempo em que se constatava o crescente interesse das comunidades indígenas por garantir suas formas de expressão cultural, percebia-se, como dificuldade comum, a inexistência de políticas públicas que possam assegurar apoio financeiro para a realização de projetos e de iniciativas de mais longo prazo, como os centros de documentação ou programas de formação de pesquisadores indígenas.

Na avaliação do encontro, os participantes afirmaram a importância de se promover momentos de troca de experiências de valorização e gestão cultural como esse, e propuseram sua continuidade, por meio de encontros focados em temáticas específicas, como programas de formação de pesquisadores indígenas e metodologias de constituição e salvaguarda de acervos culturais.