30 novembro 2010

Simpósio avaliou o uso da internet em comunidades indígenas

No último dia 26 de novembro, ocorreu, na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo, o encerramento do I Simpósio Indígena sobre Usos de Internet nas Comunidades Indígenas do Brasil, promovido pelo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo USP, em parceria com o Laboratório da Imagem e Som em Antropologia da USP com o apoio da Rede de Cooperação Alternativa – RCA Brasil, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP, da CAPES e da FAPESP.

Durante três dias, em plenárias que mesclaram apresentações de experiências de uso da internet com discussões entre os participantes, representantes de 16 povos indígenas discutiram os diferentes usos que têm feito da internet em suas comunidades. Nos debates, identificaram vários problemas comuns, a começar pelo número reduzido de comunidades indígenas que têm acesso a rede mundial de computadores. Equipamentos defasados, conexões lentas e intermitentes, falta de assistência técnica e dificuldade de acesso a programas de computadores foram algumas das dificuldades mapeadas pelo grupo.
Ampliar o contato e a troca entre as comunidades indígenas, garantir que mais comunidades indígenas tenham acesso à internet, exigir do governo maior apoio às demandas indígenas por conexão e melhoria das instalações nas aldeias e a criação de uma rede das Redes, enquanto um espaço que aglutinaria todas as redes, sites e blogs indígenas hoje existentes, para melhorar o diálogo entre os povos indígenas, fortalecer a cultura e ser um espaço de cobrança de direitos são as principais propostas formuladas durante o simpósio. Ao término deste, os participantes elaboraram um documento, que é reproduzido a seguir.

Ata do 1º  Simpósio Indígena sobre Usos da Internet no Brasil

As lideranças e indígenas, reunidas no I Simpósio Indígena sobre Usos de Internet nas Comunidades Indígenas do Brasil durante os dias 24 a 26 de Novembro de 2010, na sala da antiga biblioteca do Prédio de História e Geografia da FFLCH na USP (Universidade de São Paulo) em São Paulo-SP, após amplos debates chegaram às conclusões que seguem sobre o uso da Internet nas Comunidades Indígenas:

As dificuldades existentes:

- Dificuldade de Conexão: a antena GESAC que hoje se encontram nas aldeias indígenas não tem suprido a necessidade de conexão nas aldeias, tendo inclusive falhado constantemente em algumas Comunidades. São poucos os pontos de conexão nas aldeias Indígenas. A velocidade disponibilizada não permite downloads, upload; em muitas aldeias onde foi prometida a instalação de conexão ainda não foi instalada.

- Falta de equipamentos: os equipamentos que chegam às aldeias são muitas vezes velhos sem funcionar, os programas não são de fácil uso, equipamentos e software ultrapassados; é preciso tornar mais simples (desburocratizar) o processo aquisição de kits de Infocentros.

- Falta de manutenção: é necessária a formação de uma equipe indígena para manutenção dos computadores nas comunidades indígenas;

- falta de formação de equipe técnica nos pontos de acesso (equipe de multiplicadores): é necessária a formação de indígenas multiplicadores do uso das máquinas.

- falta de comunicação entre os indígenas que usam a internet

Encaminhamentos:

Diante de tudo que foi levantado e discutido pelos parentes presentes, ficou acordado a criação de uma Rede das Redes, um espaço que aglutinaria todas as redes, sites e blogs indígenas hoje existentes, para melhorar o diálogo entre os povos indígenas, fortalecer a cultura e ser um espaço de cobrança de nossos direitos.

Ficou claro que é urgente que mais aldeias sejam conectadas uma vez que é uma necessidade para uma maior comunicação com o mundo externo às aldeias e entre nós mesmos. A internet nas aldeias é uma ferramenta para buscar melhorias para as comunidades indígenas, daí a URGÊNCIA em solucionar os vários problemas que existem nas Aldeias como a conexão (muito lenta isso quando funciona), a falta de Computadores (muitos estão ultrapassados e sucateados) e demais questões acima citadas.

É necessário que tenham mais encontros como estes, pois é de suma importância discutir o tema da Internet nas aldeias, melhorias das condições do uso desta internet e o fortalecimento da Rede das Redes que será chamada de Rede Digital Cultura Indígena.

Por fim ficou a cargo da Rede Índios on Line e Web Brasil Indígena nas pessoas de Graciela Guarani, Alex Pankararu, Potyra Tê Tupinambá e Anapuáka Pataxó Hãhãhãe dar o suporte para os povos que ainda não tenham seus sites e blogs e também na criação do espaço virtual da Rede Digital Cultura Indígena.

São Paulo, 26 de novembro de 2010
1. Josinei Aniká dos Santos [Karipuna]
02. Maurício Yekuana [Yekuana]
03. Elizeu Nascimento Pedrosa [Piratapuia]
04. Raimundo Benjamim Baniwa [Baniwa]
05. Daniel Baniwa [Baniwa]
06. Jean Hundu Arara Jaminawa [Jaminawa]
07. Almir Narayamoga Suruí [Suruí]
08. Chicoepab Suruí [Suruí]
09. Takumã Kuikuro [Kuikuro]
10. Kumaré Txicão [Ikpeng]
11. Karané Txicão [Ikpeng]
12. Devanildo Ramires [Guarani Kayowá]
13. Elivelton de Souza [Guarani Kayowá]
14. Paulo Gomes Guajajara [Guajajara]
15. Edivan dos Santos Guajajara [Guajajara]
16. Járdilla Simões Jerônimo [Tapeba]
17. Alex Pankararu [Pankararu]
18. Graciela Guarani [Guarani Kayowá]
19. Potyra Tê Tupinambá [Tupinambá]
20. Anapuáká Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe [Tupinambá Hã-hã-hãe]
21. Lucas Benite Xunu-Miri [Guarani Mbya]
22. Nélida Rete Venega [Guarani Mbya]
23. Ataíde Vilharve [Guarani Mbya]
24. Jonesvan Xakriabá [Xakriabá]

20 novembro 2010

OPIAC realiza intercâmbio entre o povo Marubo

No âmbito das atividades de intercâmbio propiciadas pela Rede de Cooperação Alternativa (RCA-Brasil), a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), realizou de 21 a 25 de outubro uma viagem para a Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. Dois professores indígenas da OPIAC (José Mateus Itsairu Kaxinawá, da TI Baixo Jordão e Levinaldo Kaxinawá, da TI Nova Olinda), acompanhados por Maria Fernanda Vieira, do Programa de Educação do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), visitaram as aldeias Praia, Alegria e Vida Nova do povo Marubo, na calha do Alto Rio Ituí, no Javari. 
Amélia Marubo e Itsairu Kaxinawá, durante o intercâmbio da OPIAC.
Foto Maria Fernanda Carneiro/CTI, 2010.

Tanto os professores Kaxinawá do Acre, quanto os Marubo do Javari visitados nesse intercâmbio, integram o complexo cultural da família lingüística Pano, o que propiciou vários momentos de troca de informações e experiências no que diz respeito às suas práticas culturais, organização social e aos atuais processos de educação escolar indígena nas duas regiões. A precária situação de saúde vivida hoje pelos povos da TI Vale do Javari chamou atenção dos visitantes do Acre, que ficaram chocados com a falta de assistência e o número de mortes que vem ocorrendo nos últimos anos. Os visitantes kaxinawá puderam conhecer as práticas do programa de educação desenvolvido pelo CTI desde 2002 no Javari, que inclui a formação de professores indígenas para a pesquisa e para a produção de materiais didáticos para suas escolas. De volta ao Acre, os professores Kaxinawá elaboraram um minucioso registro de sua viagem, para compartilharem o que viram e aprenderam com membros de sua comunidade e da organização dos professores, difundindo a experiência da viagem.
Ao longo dos anos, a RCA já propiciou a realização de cerca de 100 intercâmbios entre representantes indígenas e indigenistas das organizações que a integram, momentos em que puderam conhecer e vivenciar experiências interculturais, conhecer problemas regionais diferentes de suas regiões de origem e verificar in loco soluções construídas por outros povos indígenas. Nos últimos anos, a temática da sustentabilidade dos territórios indígenas tem se tornado um foco privilegiado para a realização dos intercâmbios interculturais promovidos pela RCA. O intercâmbio dos representantes Kaxinawá ao povo Marubo foi apoiado pela Rainforest Foundation da Noruega, no âmbito de seu apoio institucional à RCA.

17 novembro 2010

RCA apoia realização de Simpósio sobre usos da internet em comunidades indígenas no Brasil

A Rede de Cooperação Alternativa (RCA - Brasil) é uma das apoiadoras do 1º. Simpósio sobre usos da internet em comunidades indígenas no Brasil, promovido pelo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da Universidade de São Paulo. Membros de organizações indígenas integrantes da RCA irão participar dos debates que ocorrerão na cidade universitária da USP, de 24 a 26 de novembro de 2010.

Ainda incipientes em meados dos anos 2000, os projetos de inclusão digital em comunidades indígenas no Brasil ultrapassavam a centena no final de 2009 e de acordo com planos do Ministério da Cultura, este número deveria dobrar até o final deste ano. Diante dessa expansão e da sistematização desses programas, a realização de um simpósio indígena sobre usos da internet em comunidades indígenas pretende reunir na Universidade de São Paulo um grupo de 25 a 30 pessoas oriundas de comunidades indígenas de todo o país para trocar experiências e avaliar o impacto do uso da internet no dia-a-dia das comunidades indígenas. Os debates terão o formato de rodas de conversas, alternando entre o trabalho em grupos temáticos e as apresentações / discussões coletivas, e terão lugar no Núcleo de História Indígena e do Indigenismo (NHII) e no Laboratório da Imagem e do Som em Antropologia (LISA), ambos no campus da Cidade Universitária da Universidade de São Paulo.

Além de observação presencial por parte da comunidade científica, haverá transmissão dos debates pela internet numa página do evento, a qual, entre outras funções, oferecerá aos internautas a possibilidade de interagir com perguntas enviadas para um moderador. Isso permitirá a um público amplo – inclusive aos moradores das próprias comunidades indígenas – de acompanhar os debates de onde estejam. A tarde do último dia será dedicada a responder às perguntas dos presentes, bem como àquelas enviadas por meios eletrônicos, que serão selecionadas por um moderador. www.usp.br/nhii/simposio

Local de realização

o    Antiga Biblioteca do Prédio de História e Geografia da FFLCH-USP, Cidade Universitária, USP, São Paulo.

Programação

Módulos

Módulo 1: internet do ponto de vista da comunidade: Quem está envolvido; importância e papel da comunicação; projetos de inclusão digital: como nasceram,iniciativas, gestão dos projetos e organização das parcerias; durabilidade e sustentabilidade técnica; dificuldades e problemas; sugestões.

Módulo 2: o mundo virtual – I: Troca de experiências no uso da internet; modos de interação; redes de interlocutores;

Módulo 3: o mundo virtual – II: Ferramenta existentes; construção do diálogo virtual; internet: canal de informação ou de expressão?

Módulo 4: síntese: internet pra quê?: Usos políticos e usos sociais; análise de resultados; conjecturas; possibilidades e utopias; problemas e dificuldades; demandas e sugestões.

Quarta, 24/11/2010

manhã (09:00 – 13:00): abertura, palavras dos organizadores, 1a. rodada – apresentação dos participantes e dos projetos de inclusão digital existentes em suas comunidades e 2a. rodada – definição das pautas específicas, a serem organizadas em função dos módulos

tarde (14:00 – 17:00): internet na comunidade, 3a. e 4a. rodada

Quinta, 25/11/2010

manhã (09:00 – 13:00): o mundo virtual – I, 5a. e 6a. rodada

tarde (14:00 – 17:00): o mundo virtual – II,  exibição do filme “Indígenas Digitais”, 7a. rodada

Sexta, 26/11/2010

manhã (09:00 – 14:00): síntese: internet pra quê?, 8a. rodada

tarde (14:00 – 18:00): respondendo às perguntas feitas durante todo o simpósio via internet, escolhidas por um moderador, bem como às perguntas das pessoas presentes, que não participaram dos debates, encerramento e palavras finais

 

Participantes expositores

  • Membros de comunidades indígenas beneficiadas por projetos de inclusão digital e envolvidos pessoalmente na realização, organização ou administração desses projetos, ou ativos no uso da internet.

AMAPÁ: Josinei Aniká dos Santos: jovem liderança, foi presidente da extinta Associação dos Povos Indígenas do Oiapoque, aldeia Manga, TI Uaça I e II. Na aldeia, funciona um ponto de presença GESAC com conexão à internet. Josinei é usuário do ponto GESAC.  Ariné Waiana Apalai: ex-professor indígena, Ariné mora há alguns anos em Macapá onde atua como um dos principais representantes dos povos Wayana e Aparai junto à sociedade brasileira, transmitindo as demandas dessas comunidades. Nesta tarefa, a internet constitui uma importante ferramenta de comunicação, tanto com as populações indígenas, quanto com diversas instâncias da sociedade nacional.

RORAIMA: Maurício Yekuana: liderança Yekuana povoado de Auaris, TI Yanomami, e diretor da Hutukara Associação Yanomami. Entre outras coisas, Maurício é responsável pela área de comunicação da Hutukara, da qual construiu a página eletrônca: http://www.hutukara.org/

AMAZONAS: Elizeu Nascimento Pedrosa: co-administrador do CID – Centro de Inclusão Digital da Fundação Bradesco na comunidade do povoado da Iauaretê, TI Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira. Povo Piratapuia. Raimundo Benjamim Baniwa: administrador do ponto de presença GESAC na escola Pamáali, comunidade Pamáali, médio rio Içana, TI Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira. Povo Baniwa. Blog: http://rbaniwa.wordpress.com/ e http://pamaali.wordpress.com/ Daniel Baniwa: professor de educação indígena nas comunidades Baniwa da médio rio Içana, TI Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira. Povo Baniwa. Blog: http://baniwaonline.wordpress.com/

ACRE: Jean Hundu Arara Jaminawa: liderança comunitária da aldeia Buritizal, TI Jaminawa – Arara do Rio Bajé, Marechal Thaumaturgo. Nesta aldeia, em 2003, foi implantada uma das primeiras conexão internet em comunidades indígenas na Brasil pelo programa Rede Povos da Floresta, em parceria com o CDI – Comitê para a Democratização da Informática e a CPI-Acre (Comissão Pró-Índio do Acre), entre outros. Jean é vice coordenador do OPIRJ – Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá, que foi uma das iniciadoras dos projetos de inclusão digital na região. Povo Arara Shãwãdawa / Arara do Rio Bajé.

RONDÔNIA: Almir Narayamoga Suruí: liderança suruí. Personalidade de destaque internacional, Almir foi o articulador de uma parceria firmada entre os Suruí e a Google para monitoração do território, via denúncias publicadas em tempo real no GoogleEarth. Muito ativos no uso político e estratégico das TICs, os Suruí contam hoje com um Ponto de Cultura Indígena financiado pelo Ministério da Cultura na comunidade da aldeia Lapetanha, TI Sete de Setembro, Cacoal. Povo Suruí. Chicoepab Suruí: membro da Associação Metareilá, onde funciona o ponto de cultura, aldeia Lapetanha, TI Sete de Setembro, Cacoal. Povo Suruí.

MATO GROSSO: Takumã Kuikuro: cinegrafista e internauta, usa bastante as mídias sociais “para ficar conectado” com o mundo. As comunidades Kuikuro do Xingú contam com um ponto de acesso instalado pelo Ministério da Integração Nacional através do programa Quiosque do Cidadão, situado na aldeia Ipatse, PI Xingú, Canarana. Povo Kuikuro.  Pirakuman Yawalapiti: liderança Yawalapiti. A comunidade Yawalapiti do Xingú conta com um ponto de acesso instalado pelo Ministério da Integração Nacional através do programa Quiosque do Cidadão, além dos pontos instalados no Posto Leonardo Villas Bôas, a pouca distância da aldeia. Pirakuman utiliza a internet como ferramenta de mobilização e articulação política, em prol de seu povo. Desde o ano passado, ele aparece regularmente em discussões do grupo virtual “literatura indígena” (literaturaindigena@yahoogrupos.com.br ). Povo Yawalapiti.  Kumaré Txicão: liderança Ikpeng, aldeia Ikpeng, PI Xingú, Feliz Natal, onde há um ponto de internet instalado por iniciativa da UNIFESP, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso. Povo Ikpeng. Karené Txicão: comunidade Ikpeng da aldeia Ikpeng, PI Xingú, Feliz Natal, onde há um ponto de internet instalado por iniciativa da UNIFESP, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso. Povo Ikpeng.

MATO GROSSO DO SUL: Devanildo Ramires: liderança da aldeia Te’yikue, TI Caarapó, Caarapó, onde funciona o Ponto de Cultura Teko Arandu, iniciativa do Neppi – Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas, da Universidade Católica Dom Bosco, financiado pelo Ministério da Cultura. As iniciativas de inclusão digital entre populações Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul adquiram um papel e uma importância aumentada no contexto da violência que caracteriza a situação dessas populações na região. Povo Guarani Kaiowá.  Elivelton de Souza: liderança da aldeia Te’yikue, TI Caarapó, Caarapó, onde funciona o Ponto de Cultura Teko Arandu, financiado pelo Ministério da Cultura, projeto desenvolvido pelo Neppi (Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas), da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Povo Guarani Kaiowa.

MARANHÃO: Paulo Gomes Guajajara: professor indígena na aldeia Presídio Zutiwa, TI Araribóia, Arame, cuja escola conta com alguns computadores conectados à internet por meio de uma antena do GESAC. Povo Guajajara.  Edivan dos Santos Guajajara: membro da comunidade da aldeia Presídio Zutiwa, TI Araribóia, Arame, e aluno da escola indígena onde funcionam alguns computadores conectados à internet por meio de uma antena do GESAC. Povo Guajajara.

CEARÁ: Járdilla Simões Jerônimo: professor de educação indígena e coordenador das atividades do CID – Centro de Inclusão Digital da Fundação Bradesco na comunidade da aldeia Lagoa dos Tapeba, TI Tapeba, Caucaia. Povo potiguara.

PERNAMBUCO: Graciela Guarani: mora hoje na comunidade da Aldeia Brejo dos Padres, TI Pankararu, Tacaratú, onde funciona o Ponto Digital Pankararu, uma iniciativa da ONG Thydewas financiada pelo Ministério da Cultura, como parte da rede Índios On Line, a rede de comunicação virtual mais abrangente entre povos indígenas no Brasil. Graciela faz parte do comitê gestor da rede Índios On Line, porém ela própria vem do Mato Grosso do Sul, onde organizava o blog da AJI – Ação de Jovens Indígenas, um grupo de comunicação indígena da aldeia Jaguapiru, TI Dourados. Povo Guarani Nhandeva. Portal: http://www.indiosonline.org.br  Alex Pankararu: administrador da rede Índios On Line, a rede de comunicação virtual mais extensa entre povos indígenas no Brasil. Alex mora na aldeia Brejo dos Padres, TI Pankararu, Tacaratú, onde funciona o Ponto Digital Pankararu, Ponto de Cultura que faz parte do projeto de rede Índios On Line. Povo Pankararu. Portal: http://www.indiosonline.org.br

BAHIA: Potyra Tê Tupinambá: membro do comitê gestor da rede Índios On Line, mora na comunidades da aldeia Itapoã, TI Tupinambá de Olivença, Ilhéus, onde funciona um ponto de conexão instalado por iniciativa da ONG Thydewas,  com antena do GESAC.  Povo Tupinambá.

RIO DE JANEIRO: Anapuáká Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe: blogueiro, comunicador e criador de várias mídias e redes digitais que ele caracteriza como “etnomídias indígenas colaborativas”. Anapuáká mora no Rio de Janeiro. Povo Tupinambá. Blogs: http://www.webbrasilindigena.org/ e http://webradiobrasilindigena.wordpress.com/ Rede social: http://webbrasilindigena.ning.com/ Virgínia Gandres: coordenadora de campo na implantação dos Pontos de Cultura Indígena, pela Rede Povos da Floresta, organismo responsável pela coordenação e execução de  projetos de inclusão digital em comunidades indígenas desde 2003.

SÃO PAULO: Jerá Guarani: representante da comunidade Guarani da aldeia Tenonde Porã, TI Barragem, São Paulo, que conta com vários pontos de acesso à internet desde 2008: na escola indígena pela Secretaria de Estado de Educação, no CECI – Centro de Educação e Cultura Indígena pela prefeitura municipal de São Paulo, e no posto e Saúde. Jerá colaborou ao projeto de portal de comunicação Guarani, Tekoa Guarani. Povo Guarani Mbya. Portal: http://www.antharesmultimeios.com.br/yvyrupa/  Olívio Jukepé: blogueiro e liderança indígena, da aldeia Krukutu, TI Guarani do Krukutu, onde funciona um ponto de conexão à internet desde 2004. Além do blog, Olívio é autor de vários livros e é muito ativo nas mídias eletrônicas. Blog: http://oliviojekupe.blogspot.com/ Página da aldeia: http://www.culturaguarani.org.br/homebr.html

MINAS GERAIS: Jonesvan Xakriabá: liderança xakriabá, envolvido na realização do programa de inclusão digital na comunidade Xakriabá de Brejo Mata Fome, TI Xakriabá, uma das cinco primeiras conexões instaladas pelo programa Rede Povos da Floresta, em 2003. Povo Xakriabá. Nota: sairá de Santana do Livramento, RS, onde está estudando.  Ailton Krenak: liderança indígena e um dos pilares do movimento indígena brasileiro nos anos 1980, coordenador e co-fundador da associação Rede Povos da Floresta, organismo responsável pela coordenação e execução de  projetos de inclusão digital em comunidades indígenas desde 2003. Povo Krenak.

Realização:

o    Núcleo de História Indígena e do Indigenismo (NHII / USP)

Em parceria com:

o    Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA / USP)

Com Apoio de:

o    Rede de Cooperação Alternativa (RCA),

o    Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da Universidade de São Paulo

o    Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

o    Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

13 novembro 2010

Patrimônio Cultural Indígena: Pesquisar para Conservar e Conservar para Preservar

Representantes indígenas e indigenistas do Acre, que participaram do Encontro Temático da RCA sobre gestão de patrimônios culturais indígenas, realizado no Rio de Janeiro, Repre a importância dos temas discutidos em entrevista para a jornalista

Representantes indígenas e indigenistas do Acre, que participaram do Encontro Temático da RCA sobre gestão de patrimônios culturais indígenas, realizado no Rio de Janeiro,  a importância dos temas discutidos em entrevista para a jornalista Representantes indígenas e indigenistas do Acre, que participaram do Encontro Temático da RCA sobre Gestão de Patrimônios Culturais Indígenas, avaliam a importância e a atualidade dos temas debatidos no evento, em entrevista para a jornalista Lígia Apel. A matéria, reproduzida abaixo, foi publicada no site da CPI-AC: www.cpiac.org.br

 

Respeito, valorização, fortalecimento do patrimônio cultural indígena e criação de políticas públicas específicas, foram algumas das temáticas discutidas no Encontro Temático Gestão de Patrimônios Culturais Indígenas: compartilhar conhecimentos construindo elos, que aconteceu no auditório do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, nos dias 26 a 30 de setembro de 2010.

Numa realização da Rede de Cooperação Alternativa Brasil – RCA e do Museu do Índio – FUNAI, esta Roda de Conversa reuniu representantes dos povos indígenas do Rio Negro e Vale do Javarli, na Amazônia; Yanomami, em Roraima; Xingu, no Mato Grosso; Timbira, no Maranhão; Tiriyó, Kaxuyana e Wajãpi, no Amapá; Yawanawá e Kaxinawá, no Acre. Também estavam presentes com suas experiências institucionais todas as organizações integrantes da RCA. Indigenistas: CPI/AC - Comissão Pró-índio do Acre; CTI – Centro de Trabalho Indigenista; IEPÉ - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena; ISA - Instituto Socioambiental; e indígenas: Apina - Conselho das Aldeias Wajãpi; Atix – Associação Terra Indígena Xingu; Foirn - Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro; HAY – Hutukara Associação Yanomami; OPIAC - Organização dos Povos Indígenas do Acre; e Associação Wyty-Catë dos Povos Timbira do Maranhão e Tocantins.

As experiências que ali se encontraram mostram apenas uma pequena parte da diversidade cultural do mundo indígena brasileiro. São vários povos que de uma forma ou de outra, resistiram com seu jeito de ser e viver, às pressões da sociedade envolvente. Apesar de muitas pessoas, inclusive autoridades, acharem que as culturas dos povos não resistem, há quem diga que elas não sucumbem, essa é a opinião de Zezinho Yube Kaxinawá, Agente Agroflorestal Indígena da Terra Indígena Praia do Carapanã, em Tarauacá - Acre, “os povos indígenas resistem nesse mundo tão grande que a gente mora hoje, nessa sociedade esmagadora que a gente tá envolvido. Isso parece forte – e é forte, mesmo - porque muitos jovens perderam o interesse de aprender com os mais velhos e os mais velhos perderam a vontade de ensinar, porque é maior o interesse em aprender as coisas da sociedade envolvente, que é festa, que é religião, que é música, a influência em geral. Mas, com tudo isso, as culturas indígenas estão resistindo”. Para Zezinho, isso ficou muito claro, muito evidente nas apresentações dos participantes, tanto indígenas como organizações e instituições parceiras.

Evidente, também, ficou que muito se tem feito pra revigorar o que estava quase perdido e fortalecer o que nunca se perdeu. Apresentar as diferentes formas de enfrentar o desafio e mostrar as experiências, as boas práticas de gestão cultural e iniciativas de valorização cultural que vem sendo desenvolvidas foram objetivos importantes do encontro. “Esse encontro de vários povos indígenas foi importante pra discutir o que cada povo está fazendo pra revitalização da sua própria cultura. As apresentações mostraram que a situação dos indígenas desde o contato, a pressão vinda de todos os lados, foi fazendo os povos irem perdendo seus traços culturais, as suas manifestações culturais como rituais, festas, pinturas, iniciações, etc. Mas também mostrou as diferentes maneiras que cada povo enfrentou, e está enfrentando, essa pressão”. Para Zezinho, a tarefa não é fácil e precisa muito trabalho para as atividades culturais que não são mais realizadas voltem a ser exercidas pelas populações indígenas e aquelas que não se perderam, sejam fortalecidas. “Todos estão trabalhando pra isso. Senti dos povos muita força e energia pra reviver e tentar reverter a situação e acho que a gente se sente mais fortalecido junto com esses povos, olhando o que o outro está fazendo, pois temos a mesma visão da linha por onde devemos seguir”.

 

O olhar parceiro

No olhar parceiro da coordenadora executiva da Comissão Pró-Índio do Acre, Malu Ochoa, o Encontro trouxe dois elementos muito importantes: 1. Existem diversas maneiras, diferentes estratégias sendo realizadas para o fortalecimento do patrimônio cultural indígena. 2. Há uma grande preocupação com a preservação do patrimônio que está sendo registrado por todos. “O encontro mostrou o quanto é importante a troca de experiências porque elas indicam que existem diferentes caminhos que podem ser seguidos para esse fortalecimento e há uma grande preocupação de todos pela preservação disso tudo que está sendo construído. Muitas iniciativas de outras instituições, a maneira como elas vem trabalhando, podem ser incorporadas por outros, principalmente quando são sistematizadas”, diz Malu.

A experiência da CPI/AC, que há trinta e um anos vem sendo parceira dos povos indígenas, atuando, sistematizando e compartilhando os avanços do processo de construção e reconstrução das diferentes culturas, das diferentes línguas, dos diferentes olhares, contribuiu na luta em defesa dos povos indígenas e seus territórios. Malu reforça a autoria indígena e a importância da sistematização no processo: “em todo esse tempo de parceria, nós conseguimos reunir materiais, relatórios, ilustrações, mapas, fotografias. Publicamos muita coisa importante construído pelas comunidades, de autoria das comunidades indígenas. E isso tudo, todas essas experiências, assim como as experiências de outras instituições e a maneira como vem se trabalhando, quando sistematizadas, podem ser discutidas e incorporadas para outros produtos e outras experiências”.

É o que aconteceu, e vem acontecendo, ao longo desses anos todos. Com ações realizadas em parceria, a contribuição da CPI/AC se deu dentro de um contexto histórico em diversos momentos da luta pela defesa dos povos indígenas. Uma luta específica, um momento específico, um produto específico sistematizado e publicado, leva a outra luta, a outro momento, a outro produto. A exemplo da formação de professores indígenas. A iniciativa desenvolvida pela CPI/AC com os professores, que através da pesquisa, identificou traços culturais, formas de manifestação cultural, estratégias de educação e repasse de conhecimentos de geração a geração, enfim, todo um conteúdo pesquisado, sistematizado e difundido, trouxe conquista após conquista e hoje, o resultado está aí: professores mobilizados, organizados em uma entidade de classe, a OPIAC - Organização dos Professores Indígenas do Estado do Acre, e, mais que isso, a manutenção dos aspectos culturais dos povos – sua música, seus cantos, sua dança, sua culinária, sua religião. Uma ação concreta – os cursos de professores indígenas – com seu conteúdo pesquisado, sistematizado e difundido – publicações – se estendendo para dentro das Terras Indígenas.

 

A preservação é o desafio

É indiscutível a necessidade de preservar o patrimônio cultural que está sendo construído e sistematizado pelas comunidades indígenas e pelas organizações parceiras. Todos os participantes do Encontro Temático da RCA mostraram essa preocupação. “As experiências apresentadas demonstraram que são enormes as dificuldades com relação à preservação dos seus acervos”, diz Malu. As dificuldades e os desafios apresentados foram diversos: é difícil a conservação dos materiais por conta do clima – umidade demais ou seco demais; é difícil encontrar recursos humanos – pessoas capacitadas e com habilidade para esse trabalho; há necessidade de acondicionamento adequado para materiais impressos, fotográficos ou mesmo em imagem; enfim, é preciso ter pessoas e estruturas especiais para esse tipo de preservação, que é especial.

Porém, a experiência e prestatividade do Museu do Índio foram alentadoras, pois além de indicar formas de acondicionamento e organização de acervos, ele se mostrou aberto para conversar sobre as realidades. Para a CPI/AC, “essa importância dada pelo Museu à preservação nos motivou a impulsionar essa atividade e, agora, pensamos numa parceria para favorecer a preservação do patrimônio cultural dos povos indígenas do Acre. Vamos nos apoiar em seu processo organizativo para organizar o nosso acervo”, afirma Malu com otimismo. Além disso, o Museu do Índio possui e disponibiliza muitas informações e documentos sobre os índios do Acre, o que vai fortalecer bastante o acervo do Centro de Documentação e Pesquisa Indígena – CDPI, da CPI/AC. O que é bastante animador para a historiadora e técnica em organização de arquivos Elizanilde Alvez, responsável pela documentação do CDPI: “desse encontro surgiram várias possibilidades para novos projetos de apoio a esse trabalho de organização de Centros de Documentação. Para o nosso trabalho no CDPI, pude visitar as instalações da biblioteca e do arquivo do Museu do Índio e conhecer o modelo organizacional daquela instituição, que é uma referencia no modelo de gestão documental. Muito nos conforta saber que iniciamos o trabalho aqui no CDPI no caminho certo”. O tratamento, organização e disponibilização dos documentos produzidos pelas comunidades indígenas e também dos materiais produzidos sobre elas é fundamental para a preservação deste patrimônio.

 

Desafios que tocam a todos

Os 19 representantes de povos indígenas, organizações indígenas e entidades parceiras presentes no Encontro identificaram vários desafios, entre eles tem os específicos de cada lugar, mas muitos são comuns:

ü  Algumas políticas públicas incentivam a dependência dos indígenas na cultura não índia. Jovens que vão estudar fora de sua aldeia, não retornam ou quando retornam procuram impor costumes diferentes nas comunidades;

ü  A estadualização das escolas indígenas, ou seja, quando o Estado assume as escolas, traz muitos problemas. Por exemplo, o perfil do professor de uma escola estadualizada é diferente do perfil necessário para um professor indígena. O professor indígena deve ter incorporado a cultura daquele povo, as motivações da luta pela terra, das negociações por políticas públicas, das ações de fortalecimento e preservação do patrimônio cultural devem ser da natureza do professor indígena.

ü  Há muitas igrejas e instituições religiosas dos não índios entrando nas aldeias. Com isso, alguns velhos depois de começar a participar deixam de exercer os seus rituais e manifestações religiosas de sua cultura;

ü  Os Pontos de Cultura Indígenas conquistados precisam ser fomentos da cultura indígena, daí a importância de ser trabalhado o conteúdo a ser divulgado por essa ferramenta tecnológica. Caso contrário, pode se tornar um instrumento destrutivo dela.

ü  A televisão que chegou nas aldeias é importante como veículo de informação, mas é um conhecimento que deve ser usado a favor dos povos indígenas. O que é muito difícil de acontecer.

Esses são alguns dos problemas comuns que apareceram no Encontro Temático da RCA. Difíceis de serem resolvidos, mas a simples conversa a respeito deles iluminou alguns caminhos. A partir deles, foram sistematizados 03 grandes desafios e estratégias de ação:

1.    Em relação ao patrimônio cultural o grande desafio posto é definir o que guardar e registrar; como fazer para bem guardar estes materiais e, o mais importante, porque guardar esse material.

2.    Tendo em vista as influências recebidas da sociedade envolvente e/ou o uso indevido de informações e conhecimentos indígenas, será preciso estabelecer restrições para a transmissão dos conhecimentos?

3.    Qual é o papel do pesquisador indígena na comunidade? Simplesmente coletar informações ou contribuir com o fortalecimento e o vigor das formas e jeitos do viver indígena?

A vivência da parceira CPI/AC, aos olhos de Malu Ochoa, traz uma certeza quando se depara com outras experiências tão ricas quanto a dela. “existem experiências diversas de fortalecimento, de formas de revigorar o patrimônio cultural indígena, mas todas elas buscam sua preservação. E o que mais impressiona nesse trabalho de busca, de pesquisa das características culturais de um povo, é que muitas vezes, há coisas escondidas dentro da pessoa, muitos indígenas tem sua cultura latente dentro de si. E a pesquisa contribui para trazer à tona, para dar visibilidade e ação ao que estava escondido. E, claro, a pesquisa também contribui com o fortalecimento das outras características culturais dos povos indígenas que estão bastante vivas e atuantes”. O trabalho nada mais é do que buscar essas manifestações, reunir e valorizar tudo isso e organizar para poder dividir.

por Lígia Apel